Noite Feliz

Um conto criado dentro das histórias vivenciadas no Projeto M.E.D.O.

Escrito por: Georgia Amorin
Personagem: Anne
Criatura: Vampira
Clã: Toreadora AT
Seita: Sabá

Ela não escolhera o calmo há anos atrás, estaria cansada? Ou perdera o encanto...
Seria conveniente desistir agora?

A noite era calma, ninguém nas ruas. Através da janela Anne via cair a neve, mas não sentia frio. Ali dentro, uma linda árvore de Natal com bolas douradas e enormes laços vermelhos feitos à mão, um a um. Pequenos cavalos entalhados em madeira escondiam-se no verde profundo do pinheiro. Anne estava orgulhosa. Passara o dia todo decorando a casa e embrulhando presentes, esperando os outros acordarem. Agora sentava-se na poltrona favorita de Duncan e alisava seu vestido vermelho, levantando-se vez ou outra para fazer ajustes mínimos na decoração.

Anne se levantou rapidamente quando Duncan entrou na sala. Arrumando suas abotoaduras, ele caminhou para perto da árvore, analisando-a. Depois, virou-se sorrindo, abraçou Anne e então agradeceu, beijando-lhe a testa. Ele apreciava seu bom gosto e frequentemente elogiava suas escolhas de estilo. Anne sentia um rubor em suas bochechas, sabia que sua mente lhe pregava essas peças ocasionalmente.

Há tempos não passavam juntos noites calmas, era revigorante ter um lugar para chamar de lar. E não eram poucas as vezes em que, no desconforto e desgosto, Anne pensava se sua decisão não fora precipitada. Mero escapismo? Talvez. Trocar os macios lençóis árabes pelo leito que houvesse, substituir todos os sabores do mundo por aquela nota metálica a cada refeição. Essas noites, porém, faziam tudo valer à pena. A família se reunia, celebrava o criador e dividia o sangue. Uma monótona noite de Natal, a quebra do caos e, por um momento, paz. Logo estariam todos ali, todos juntos.

Conforme seus irmãos chegavam, Anne os abraçava, radiante, e entregava uma taça. Enquanto conversava, ocasionalmente sacudia sua cabeça para mexer seus cabelos. Eles estavam tão bonitos e bem cuidados, algo que não acontecia há tempos. Estavam lá todos seus irmãos, cada um com sua peculiaridade, mas ainda uma família, nada poderia ser melhor.

O tempo se passava e Duncan dominava a sala com uma de suas histórias quando se ouviu uma batida forte na porta. Anne olhou ao redor, não faltava mais ninguém. "Provavelmente um coral de Natal", pensou. Duncan levantara e andava calmamente em direção à porta, enquanto continuava seu discurso, mas antes que ele chegasse, a frágil folha de madeira se soltou do batente e voou pela sala, atingindo a mesa de jantar e derrubando os castiçais de bronze que Anne tão minuciosamente escolhera no mercado de pulgas mais cedo. Com um salto, Anne se pôs de pé. Pela porta entravam homens armados com todos os tipos de lâminas, estacas e revólveres. Duncan rapidamente se pôs ao lado de Anne e segurou seu braço com força enquanto seus irmãos avançavam em direção aos invasores. Então sussurrou em seu ouvido "Corra", e a puxou na direção da cozinha, enquanto um pequeno incêndio se iniciava com os candelabros ao chão. Anne estava hesitante em fugir, queria lutar, mas sabia que não tinha o que era necessário para ajudar seus irmãos que agora travavam um combate na sala tão minuciosamente decorada.
Na cozinha havia uma porta para um pequeno quintal aonde Anne plantara jacintos na primavera. "Mais um jardim abandonado", pensou, provavelmente arderia em minutos.

Ao sair, Anne ainda correu por um longo período. A vida era uma eterna temporada de caça, mas Anne nunca fora caçadora. Ao correr se sentia ofegar, mais um pregar de peça de seu inconsciente. Quando parou, percebeu que já estava fora da cidade. Olhou para Duncan, que bateu a poeira de suas calças e passou a andar calmamente ao longo da estrada deserta na noite de Natal.
O silêncio se manteve até que alcançaram uma casa abandonada com um pomar decrépito ao lado. Suas janelas vedadas com tábuas de madeira e pregos enferrujados. Duncan abriu a porta para Anne com um gesto de cortesia. A casa estava em ruínas, mas nessa noite seriam suas ruínas. Deitou-se sobre um tapete empoeirado no meio da sala, o vestido vermelho sujo e amassado. Anne esperou o corpo de Duncan ao seu lado, mas ele não apareceu. Sentindo-se triste e sozinha, pensou em seus bravos irmãos.

Às vezes desejava sua antiga vida, em noites de fuga e perseguição. Aquela noite almejava especialmente o tédio da nobreza britânica. Porém, nunca mais seria viável o cômodo e calmo.

Ela não escolhera o calmo há anos atrás, estaria cansada? Ou perdera o encanto...

Seria conveniente desistir agora? Talvez.

Anne virava seu corpo lentamente no tapete enquanto abraçava seu próprio tronco. Duncan fechara uma porta e ela sabia que não a devia transpor. Ela estava frustrada, não sempre, mas hoje sim, hoje pensava em abandonar aquela vida de fugas e voltar a criar seus cavalos, como fazia no passado. Anne pensou em Duncan, e ficou.

Passou o dia acordando, olhava ao redor, tentava ouvir sons lá fora. O dia de Natal não tinha movimento. Ouvia pássaros e outros animais, mas nenhuma outra presença. Estavam todos em casa com suas famílias. Anne lamentou por sua família, que ficara para trás para proteger a seu Ductus e ela.

Na noite seguinte, seguiu viagem com Duncan, que acordara bem humorado e conversador, como se nada houvesse acontecido. Seu ânimo parecia inabalado pelos acontecimentos da noite anterior.

Quando Anne parecia desanimar, Duncan lhe abraçava: "Nós contra o mundo, meu amor", ele dizia. "Nós contra o mundo", ela repetia.